manifesto

1) Quem somos

Pensar a poesia como trabalho é uma questão central para nós. O trabalho das mulheres,* em todas as suas categorias, é extremamente importante para o funcionamento de nossas sociedades mas é, em igual medida, extremamente subestimado. As denúncias de abusos que sofremos dentro e fora do ambiente de trabalho são, consequentemente, negligenciadas e apagadas. Somos trabalhadoras: escrevemos, pesquisamos, traduzimos, performamos, editamos e publicamos poesia.

Na vida laboral, as mulheres recebem menos do que os homens para desempenhar as mesmas tarefas; na vida privada, exercemos inúmeras horas não remuneradas de trabalhos domésticos e de cuidados. Isso tudo é trabalho. E são tarefas que se espera que sejam performadas por nós. Espera-se que aceitemos esse trabalho sem receber remuneração, sob o argumento de que nós nascemos para esse papel. E aquelas que conseguem minimizar essa forma de trabalho só podem fazê-lo nas costas de outras mulheres, geralmente pobres, geralmente negras, geralmente imigrantes internas, geralmente mal pagas, que cada vez mais são mulheres que trabalham em condições informais, ilegais e desprotegidas pela lei.

Queremos falar exatamente de informalidade: a precariedade e a flexibilidade de leis laborais prejudicam as condições de trabalho tanto de poetas mulheres quanto de homens. O trabalho da escrita é permeado, em todas as suas fases (desde a escrita à publicação), de precariedade e abandono. Uma das razões para isso: a poesia não é conhecida por ser um nicho que gere lucro e, assim sendo, não paga as contas de ninguém. Poetas precisam escrever nas horas que sobram, depois do trabalho assalariado obrigatório.

Para as poetas mulheres, no entanto, a situação é ainda mais aguda, já que além de sermos obrigadas a exercer um trabalho remunerado, somos nós as responsáveis pelo trabalho de cuidado. Temos, portanto, uma jornada tripla: escrevemos nas poucas horas que sobram depois que fizemos o trabalho doméstico e o assalariado, mas sem nenhum direito e pouco reconhecimento e solidariedade dos colegas. Além disso, trabalhamos num meio dominado por homens que concentram imenso pequeno-poder. À informalidade soma-se o domínio dos colegas homens, o que nos expõe a todo tipo de abuso – desde a baixa representatividade nas publicações e eventos até a falta de oportunidades remuneradas; extorsões, chantagens, assédios sexuais e morais; instrumentalização e cooptação oportunista de nossas pautas em contextos que usam nossa produção apenas para cumprir a cota de mulheres.

A poesia está permeada de informalidade, o que nos deixa a nós, mulheres*, especialmente vulneráveis. A informalidade das relações de trabalho permite que a solidariedade apolítica entre colegas homens – a tal da “brodagem” – ganhe força dentro de contextos que deveriam ser seguros para todas as trabalhadoras. E é justamente a informalidade das relações de trabalho e a desproteção das poetas que queremos debater e combater.

* Por “mulher”, entendemos e incluímos todas as pessoas FLTIQ (female lesbian trans inter queer) que se autoidentificam como mulher.

 

2) Por que nos mobilizamos

 Numa leitura do CEP 20.000, no Teatro Sérgio Porto, no Rio de Janeiro, uma das poetas que ia se apresentar falou que só leria seus poemas quando o homem que havia tentado estuprá-la se retirasse da sala. O que se seguiu foi um profundo silêncio, sem que quase ninguém – organização, plateia ou coleitores – soubesse reagir à demanda legítima da poeta (que, ali, estava num ambiente de trabalho). Além do grito de duas mulheres, uma das editoras dos Cadernos do CEP se levantou e exigiu que ele se retirasse. Um amigo dele protestou. Ele saiu. A poeta leu e foi embora. O agressor voltou e permaneceu no teatro. Nos dias que se seguiram, o que vimos foi, entre os poetas, a reprodução da lógica misógina de culpabilização da vítima e relativização do seu relato. Alguns colegas, na grande maioria homens, clamaram pelo direito de resposta do acusado, numa óbvia demonstração de desconfiança da palavra da poeta. O organizador mais antigo e conhecido do evento chegou a chamar “estupro” de “vacilo” e sugeriu que a poeta, em vez de fazer uma denúncia pública, escrevesse um poema sobre o assunto.

Nós nos perguntamos: como é possível que toda mulher conheça uma outra mulher que foi estuprada, e nenhum homem conheça um homem estuprador? Como é possível que nossos textos, que tantas vezes denunciam a misoginia, sejam celebrados por esses poetas, mas, no momento em que o acusado de estupro é um deles, se comportam como se nunca nos tivessem lido? Essa conta não fecha. Como trabalhadoras da poesia, estamos cansadas de termos nossas histórias instrumentalizadas por editores, curadores e colegas – que usam ou citam nosso trabalho para conferir preocupação e potência política a seus eventos, publicações, referenciais bibliográficos, textões de Facebook, personas públicas – sem que sejam capazes de, na hora que a vida real bate na porta, se comportarem de forma solidária e comprometida com nossa luta. O oportunismo desses homens está exposto. A brodagem está exposta. O que aconteceu no CEP 20.000 é apenas a ponta do iceberg e mostra que lutar por visibilidade não foi suficiente para transformar relações sociais sequer dentro da nossa própria categoria (que dirá fora dela!…). Lutar por visibilidade nos deu alguma melhoria no que diz respeito ao acesso a publicações e festivais, mas não nos deu direitos. Queremos mais do que visibilidade. Queremos respeito. Nós nos unimos, portanto, com o desejo de apontar uma nova direção no nosso ativismo e nas nossas demandas. Nosso posicionamento está inserido numa genealogia feminista que nos antecede, com poetas como Gilka Machado, Laura Brandão, Patrícia Galvão e muitas outras que, em fases diferentes da história, lutaram pelo Sufrágio Universal e em causas abolicionistas. As poetas brasileiras estão, há mais de um século, presentes e atuantes na luta política.

 

3) O que queremos

 Acreditamos que o que aconteceu no CEP 20.000 abre um precedente, e cria uma energia nova, para nos mobilizarmos como categoria, e usar o que aconteceu para criação de comunidade – não apenas para dar um contra-statement.

Estamos reunidas com o desejo de criar, entre nós, uma genealogia de educação política, para que saibamos não somente nossas demandas, mas como agir diante das opressões. Para isso precisamos de repertório e treino, de experiências coletivas, de estarmos juntas na vida real, criando uma rede de educação política feminista; é necessário conhecer como outras ativistas se organizam e como seus grupos operam; é necessário uma troca orgânica de demandas e estratégias; é necessário que comecemos a falar dos nossos direitos laborais, como mulheres e como trabalhadoras desprotegidas pela informalidade. É necessário imaginar juntas pelo bem-estar de todas e todos.

. Pela organização das poetas como classe trabalhadora;
. Pela criação de ambientes de trabalho em que as poetas de todas as classes sociais, cores, origens, sotaques, orientações sexuais, com ou sem vagina, se sintam seguras e acolhidas umas pelas outras e pelos colegas homens;
. Pelo fim da instrumentalização das nossas pautas para fins oportunistas e/ou antifeministas, racistas, classistas, lesbo e transfóbicos;
. Pela criação de uma cultura de educação política, jurídica e feminista;
. Pela fim da cultura da brodagem e pela criação de uma cultura de responsabilidade ética e de solidariedade entre todos e todas;
. Pelo fim da naturalização da presença de agressores;
. Pelo fim da culpabilização da vítima e relativização de seus relatos;
. Por estratégias de defesa mais eficazes, que protejam as mulheres, e contra o incentivo da cultura de “dar nome aos bois”;
. Pelo fim da naturalização de vítimas de estupro e quaisquer outros abusos sendo processadas por calúnia pelos seus agressores.

 

 

texto: adelaide ivánova, maria isabel iorio e julia klien.
revisão: letícia féres.

 

assinam:

Adelaide Ivánova
Adrienne Myrtes
Alice Ruiz
Aline Miranda
Ana Beatriz Domingues
Anna Costa e Silva
Anelise Freitas
Bel Baroni
Bell Puã
Bruna Mitrano
Carolina Luisa Costa
Carolina Turboli
Carla Diacov
Cecília Floresta
Cristina Flores
Danielle Magalhães
Érica Zíngano
Estela Rosa
Fabiana Faleiros
Fernanda Moreira
Fernanda Vivacqua
Flávia Péret
Francisca Camelo
Francesca Cricelli
Gabriela Gomes
Jarid Arraes
Joana Lavôr
Julia Klien
Julia Raiz
Júlia Manacorda
Juliana Travassos
Katia Borges
Laura Assis
Laetitia Jourdan
Letícia Féres
Letícia Gelabert
Lori Regattieri
Lotta Theißen
Luísa Espíndula
Luiza Paranhos
Mafalda Sofia Gomes
Maria Bogado
Maria Isabel Iorio
Maria Rezende
Mari Ruggieri
Marcela Batista
Márcia Alvaredo
Marina Sereno
Micheliny Verunschk
Natalia Borges Polesso
Natasha Félix
Natália Araújo
Nathalia Gastim
Nathália Rinaldi
Nina Rizzi
Norma de Souza Lopes
Pollyana Quintella
Prisca Augustoni
Priscilla Campos
Priscilla Menezes
Regina Azevedo
Regina Dalcastagnè
Rita Isadora Pessoa
Simone Brantes
Simone Paulino
Sophia Pinheiro
Stephanie Borges
Tereza Seiblitz
Yasmin Nigri

 

Anúncios